Eu confesso que comecei 2017 cheia de esperanças e expectativas.
De todo meu coração, busquei forças em Deus para pensar positivo, esse ano
daria certo! Mas, mal o segundo mês do ano está chegando ao fim e eu já posso
gritar por 2018! Seria cômico se não fosse trágico.
Nunca escrevi
sobre isso, nunca tive competência suficiente para falar sobre, sem me
machucar. Apesar de que, a escrita foi uma válvula de escape enquanto estive me
afogando, escrever a respeito sempre me trará de volta a estranha sensação de
estar perdida sem saber como retornar.
No ano de 2010 eu
vivi um dos piores anos de minha vida. Talvez o pior, onde tudo começou e eu
nem ao menos me dei conta. Quando vi, já estava lá, naufragada. Foram dois anos
entre entrar e sair do furacão. Meio de 2010 me dei conta de que algo estava
errado, já não sentia mais vontade de fazer nada, não sabia mais o que era
almoçar, se era manhã ou noite, se fazia calor ou frio. Eu simplesmente estava
inerte. Às vezes me questiono se eu estava mesmo em mim. Engordei 20 kg e até hoje
não consegui eliminá-los por completo. Até que chegou 2011, quando Deus segurou
minha mão e me levantou. Porém, até lá foi muita estrada. Foram tantos sonhos
jogados fora, que nem consigo lembrar alguns deles. Ali, renascia uma pessoa
que até hoje não consigo conhecer bem. Ali, nasceu a mulher no lugar da menina
sonhadora que lutaria por seus sonhos. Tudo que podia ir embora, foi.
Inclusive, meu amor próprio.
Só quem já passou
por uma depressão, sabe como é impotente diante de uma dor sem fim. Você não
percebe, ela vem sorrateira, até que te domina e para sair, dá trabalho. A
depressão é, por muitas vezes, confundida com preguiça, vagabundagem,
descaração. Eu que o diga, perdi as contas de quantas vezes minha mãe me disse
que eu não queria nada com a vida.
Eu caminhava,
parada no mesmo lugar. Eu buscava ajuda, em pleno silêncio. Era mais forte do
que eu. Não ia para faculdade, tinha medo de sair de casa, acordava as 4:00 da
manhã, tomava banho, me arrumava para ir, mas quando olhava para o lado de
fora, desistia. Foram quase dois semestres perdidos nessa situação. Voltava a
dormir, e era o restante do dia julgada por uma mãe que não sabia o que estava
acontecendo. Não era culpa dela. Nem minha. Eu simplesmente não conseguia.
Entre uma ida ou
outra à faculdade, consegui passar em poucas matérias, o que para mim foi
milagre dos grandes. E sempre acompanhada das minhas amigas, nunca podia estar
sozinha. Lembro que até para fazer a manutenção do aparelho, iam pelo menos
três delas comigo. Amigos, sem sombra de dúvidas, são anjos que nos seguram
quando nossas asas falham.
Deus, meus poucos
amigos, que assim como eu não sabiam o que estava acontecendo, porém não me
julgavam, minhas músicas e meus livros foram cruciais para que eu não perdesse
o fiozinho de vida que me restava. Minhas orações eram em formato de lágrimas,
quando não, em forma de silêncio. Mas, ainda bem que Deus é um ótimo ouvinte do
nosso silêncio. Ele capta tudo, sem perder nenhum mínimo detalhe. Meus amigos,
como já disse, não me julgavam, mas se colocaram como tal: amigos. As músicas
sempre me salvaram de mim, serei sempre grata por ter uma alma tão musical. E
os livros, cada palavra que li, me davam a certeza de que tudo passaria, mesmo
que demorasse. Escrevi textos tão cheios de dor, de pedidos de socorro, mas nunca
os postei. Sabe lá onde foram parar.
Eu tive algumas
ajudas, alguns botes salva-vidas, menos a principal ajuda, de um psicólogo. E
olha só que ironia, eu era estudante de Psicologia. Casa de ferreiro, espeto de
pau. Mas, se nem ao menos sabia o que estava acontecendo, quem dirás sabia que
era caso para tratamento psicológico.
Um dia, lendo o
livro "A cabana", ocorreu meu resgate. Deus, com sua infinita
bondade, me resgatou de mim, de tudo que me fazia desistir e de tudo que me
sufocava. Eu não estava sozinha.
Mas, porque estou
escrevendo hoje sobre isso? Por que depressão quando não tratada da forma
correta, que é a terapia, ela volta. Aliás, depressão volta com ou sem
tratamento. O que ocorre é que, com tratamento, você sabe exatamente como lidar
com isso e supera.
E esses dias, ela
bateu na minha porta. Como uma velha conhecida, ela quer entrar novamente.
Sem escrúpulos, sem cerimônias. Já conheço os sintomas. Durmo mais que o
normal, qualquer coisa me dá crise de ansiedade, o medo de sair que tantas
vezes me paralisou, uma tristeza sem fim. A maldita sensação de estar só, que
nos leva de fato a estar. Um grupo macabro de coisas que lhe entregam de
bandeja para ela.
A depressão
precisa ser tratada como algo sério. Não é frescura, nem malandragem, muito
menos preguiça. É uma doença séria, que se não tratada a tempo, é um caminho
sem volta. Por muitas vezes me perguntei qual sentido da vida, e aos poucos fui
reconstruindo meus próprios motivos para viver. No meio do caminho, claro, houve
alguns percalços, decepções, frustrações, mas eu tinha certeza de que eu
conseguiria superar qualquer coisa, desde que superei uma depressão sem ajuda
de ninguém. E consegui.
Mas tem dias que
me torno mais vulnerável, e cá está ela, convidativa, como se eu não tivesse
outra escolha. Tenho motivos de sobra para entender que não deve haver espaço,
já que foram os piores momentos da minha vida. Ser impotente com os outros é
ruim, mas ser impotente em relação a si mesmo é o fim.
Fim, palavra tão
pequena, mas tão significativa. Eu sei que ainda não é o fim e que terei uma
vida maravilhosa, mas até lá, é aprender a ter paciência e fé. É superar todos
os dias a vontade de passar um dia todo chorando. É segurar firme nas mãos do Abba,
pois Dele provém à força. É se agarrar às pequenas coisas, o brilho do Sol que
tanto amo, aos poucos amigos que se fazem presentes, ao brigadeiro que adoro
comer, aos sonhos que ainda se mantêm firmes, à esperança do amor que um dia
vai chegar, me salvando de toda dor que ainda guardo em mim. Segurar
firme nessa mania linda de escrever o que sinto, nos livros que sempre me
induzem a ir além, a minha formatura que está próxima, aos filhos que quero
ter, às borboletas que superam tanta coisa para viver apenas poucos dias. Ao
principal, uma boa ajuda profissional, honrando minha própria profissão.
Não vou desistir,
não posso. Mas, sinto como se fosse como uma viciada, vivendo um dia de cada
vez, matando um leão por dia.
Só por hoje.
Priscila Calheiros





