Leva embora chuva, toda essa amargura que está em mim.
Leva a falta de consolo, o desespero bobo, a falta do outro.
Leva toda angústia, todo despreparo, leva a culpa e o desamparo.
Leva o desgosto, a falta do beijo gostoso, e a tristeza que está aqui.
Leva a ausência dele, o telefonema não feito, o apego e o grande desejo.
Leva embora a agonia, a falta de magia, a busca pelo outro dia.
Leva embora o que faz mal, o que abala e o que destrata.
Leva contigo a falta de amor, o primeiro beijo e os inúmeros abraços.
Leva pra longe todo esse amor que não cabe em mim, o sumiço dele e os sonhos
ruins.
Leva também as declarações de amor, o início da dor, e aquele rancor.
Leva pra longe a desesperança, a falta de andança, o princípio do fim.
Leva ele contigo, pra não ser mais meu amigo, nem ser namorado.
Leva o que a gente tem, o que não tem e o que haveria de ter.
Leva porque em mim não cabe mais, nada do que eu já disse ali atrás, nem o
que ainda pode vir.
Leva porque a escolha foi dele, e eu cumprindo com meu dever, tenho que ir.
Leva porque não sou sombra, nem outra, nem aquela, nem antes e nem depois.
Leva porque sou agora, presença concreta, menina boneca, porque sou mulher.
Leva já que não me completa, já que me deixa na espera, já que não pode ser
meu.
Leva também a saudade, o sofrimento póstumo e o amor dos dois.
Priscila Calheiros