quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Só por hoje...

Eu confesso que comecei 2017 cheia de esperanças e expectativas. De todo meu coração, busquei forças em Deus para pensar positivo, esse ano daria certo! Mas, mal o segundo mês do ano está chegando ao fim e eu já posso gritar por 2018! Seria cômico se não fosse trágico.
Nunca escrevi sobre isso, nunca tive competência suficiente para falar sobre, sem me machucar. Apesar de que, a escrita foi uma válvula de escape enquanto estive me afogando, escrever a respeito sempre me trará de volta a estranha sensação de estar perdida sem saber como retornar.
No ano de 2010 eu vivi um dos piores anos de minha vida. Talvez o pior, onde tudo começou e eu nem ao menos me dei conta. Quando vi, já estava lá, naufragada. Foram dois anos entre entrar e sair do furacão. Meio de 2010 me dei conta de que algo estava errado, já não sentia mais vontade de fazer nada, não sabia mais o que era almoçar, se era manhã ou noite, se fazia calor ou frio. Eu simplesmente estava inerte. Às vezes me questiono se eu estava mesmo em mim. Engordei 20 kg e até hoje não consegui eliminá-los por completo. Até que chegou 2011, quando Deus segurou minha mão e me levantou. Porém, até lá foi muita estrada. Foram tantos sonhos jogados fora, que nem consigo lembrar alguns deles. Ali, renascia uma pessoa que até hoje não consigo conhecer bem. Ali, nasceu a mulher no lugar da menina sonhadora que lutaria por seus sonhos. Tudo que podia ir embora, foi. Inclusive, meu amor próprio.
Só quem já passou por uma depressão, sabe como é impotente diante de uma dor sem fim. Você não percebe, ela vem sorrateira, até que te domina e para sair, dá trabalho. A depressão é, por muitas vezes, confundida com preguiça, vagabundagem, descaração. Eu que o diga, perdi as contas de quantas vezes minha mãe me disse que eu não queria nada com a vida.
Eu caminhava, parada no mesmo lugar. Eu buscava ajuda, em pleno silêncio. Era mais forte do que eu. Não ia para faculdade, tinha medo de sair de casa, acordava as 4:00 da manhã, tomava banho, me arrumava para ir, mas quando olhava para o lado de fora, desistia. Foram quase dois semestres perdidos nessa situação. Voltava a dormir, e era o restante do dia julgada por uma mãe que não sabia o que estava acontecendo. Não era culpa dela. Nem minha. Eu simplesmente não conseguia.
Entre uma ida ou outra à faculdade, consegui passar em poucas matérias, o que para mim foi milagre dos grandes. E sempre acompanhada das minhas amigas, nunca podia estar sozinha. Lembro que até para fazer a manutenção do aparelho, iam pelo menos três delas comigo. Amigos, sem sombra de dúvidas, são anjos que nos seguram quando nossas asas falham.
Deus, meus poucos amigos, que assim como eu não sabiam o que estava acontecendo, porém não me julgavam, minhas músicas e meus livros foram cruciais para que eu não perdesse o fiozinho de vida que me restava. Minhas orações eram em formato de lágrimas, quando não, em forma de silêncio. Mas, ainda bem que Deus é um ótimo ouvinte do nosso silêncio. Ele capta tudo, sem perder nenhum mínimo detalhe. Meus amigos, como já disse, não me julgavam, mas se colocaram como tal: amigos. As músicas sempre me salvaram de mim, serei sempre grata por ter uma alma tão musical. E os livros, cada palavra que li, me davam a certeza de que tudo passaria, mesmo que demorasse. Escrevi textos tão cheios de dor, de pedidos de socorro, mas nunca os postei. Sabe lá onde foram parar.
Eu tive algumas ajudas, alguns botes salva-vidas, menos a principal ajuda, de um psicólogo. E olha só que ironia, eu era estudante de Psicologia. Casa de ferreiro, espeto de pau. Mas, se nem ao menos sabia o que estava acontecendo, quem dirás sabia que era caso para tratamento psicológico.
Um dia, lendo o livro "A cabana", ocorreu meu resgate. Deus, com sua infinita bondade, me resgatou de mim, de tudo que me fazia desistir e de tudo que me sufocava. Eu não estava sozinha.
Mas, porque estou escrevendo hoje sobre isso? Por que depressão quando não tratada da forma correta, que é a terapia, ela volta. Aliás, depressão volta com ou sem tratamento. O que ocorre é que, com tratamento, você sabe exatamente como lidar com isso e supera.
E esses dias, ela bateu na minha porta. Como uma velha conhecida, ela quer entrar novamente. Sem escrúpulos, sem cerimônias. Já conheço os sintomas. Durmo mais que o normal, qualquer coisa me dá crise de ansiedade, o medo de sair que tantas vezes me paralisou, uma tristeza sem fim. A maldita sensação de estar só, que nos leva de fato a estar. Um grupo macabro de coisas que lhe entregam de bandeja para ela.
A depressão precisa ser tratada como algo sério. Não é frescura, nem malandragem, muito menos preguiça. É uma doença séria, que se não tratada a tempo, é um caminho sem volta. Por muitas vezes me perguntei qual sentido da vida, e aos poucos fui reconstruindo meus próprios motivos para viver. No meio do caminho, claro, houve alguns percalços, decepções, frustrações, mas eu tinha certeza de que eu conseguiria superar qualquer coisa, desde que superei uma depressão sem ajuda de ninguém. E consegui.
Mas tem dias que me torno mais vulnerável, e cá está ela, convidativa, como se eu não tivesse outra escolha. Tenho motivos de sobra para entender que não deve haver espaço, já que foram os piores momentos da minha vida. Ser impotente com os outros é ruim, mas ser impotente em relação a si mesmo é o fim.
Fim, palavra tão pequena, mas tão significativa. Eu sei que ainda não é o fim e que terei uma vida maravilhosa, mas até lá, é aprender a ter paciência e fé. É superar todos os dias a vontade de passar um dia todo chorando. É segurar firme nas mãos do Abba, pois Dele provém à força. É se agarrar às pequenas coisas, o brilho do Sol que tanto amo, aos poucos amigos que se fazem presentes, ao brigadeiro que adoro comer, aos sonhos que ainda se mantêm firmes, à esperança do amor que um dia vai chegar, me salvando de toda dor que ainda guardo em mim.  Segurar firme nessa mania linda de escrever o que sinto, nos livros que sempre me induzem a ir além, a minha formatura que está próxima, aos filhos que quero ter, às borboletas que superam tanta coisa para viver apenas poucos dias. Ao principal, uma boa ajuda profissional, honrando minha própria profissão.
Não vou desistir, não posso. Mas, sinto como se fosse como uma viciada, vivendo um dia de cada vez, matando um leão por dia.
Só por hoje. 

Priscila Calheiros



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