segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Aspectos tóxicos da masculinidade e o suicídio



Setembro Amarelo. É o mês de conscientização sobre a prevenção do suicídio, assim mesmo define o site da campanha. A história que inspirou essa campanha começou nos EUA, no ano de 1994 quando um jovem de 17 anos tirou a própria vida dirigindo seu Mustang amarelo, um carro que ele mesmo havia reformado. A história é sempre importante, pois ela nos ensina, principalmente nos detalhes. O que levaria um jovem rapaz de 17 anos a tirar a própria vida?

Kovács (1992) afirma que o suicídio é um fenômeno complexo, com causas multifatoriais e que sempre tem uma história de sofrimento humano, muitas vezes não ouvido nem acolhido. Aqui é proposto pensar sobre a influência de aspectos tóxicos da masculinidade como fatores no suicídio do homem.

A sociedade brasileira é patriarcal, centrada no homem branco cisgênero (que se identifica com o gênero biológico com o qual foi designado ao nascer), heterossexual e geralmente cristão. Isso significa dizer que os homens têm diversos privilégios pelo fato de nascerem homens e assim se identificarem ao longo de suas vidas. Privilégios socioeconômicos como os salários maiores que o das mulheres; privilégios socioculturais, como a possibilidade de transitar livremente, sem sofrer assédio, limitações parentais ou religiosas; privilégios sócio-educacionais, ao serem sempre validados e terem suas opiniões consideradas como fundamentais. Tais privilégios as mulheres não tem. Acontece que a construção do masculino hoje é distorcida e carrega aspectos tóxicos.

A masculinidade nega o feminino. O homem não pode chorar, aprende a não ser sensível, aprende que suas emoções devem ser implodidas, aprende que abraçar, beijar, ou ter qualquer tipo de contato mais afetivo com outro homem o descaracteriza como masculino. O homem acaba dissociado de suas emoções, de sua sensibilidade e desautorizado de falar sobre seus sofrimentos, pois a competitividade e a destruição dos mais fracos impera no universo masculino. Há uma excessiva valorização da racionalidade, da lógica, da objetividade, da ambição, de um predatismo em nossa sociedade; todas essas características sendo associadas ao masculino.

Na Psicologia Analítica dá-se a esse desenvolvimento excessivo o nome de unilateralidade; isso significa que se desenvolve apenas para um único lado, por uma única via, e se ignora que o humano, o homem incluso, é composto de multiplicidades e diversidades. O desenvolvimento unilateral sempre leva a um adoecimento: psíquico, mas também social e cultural, quando falamos de algo tão amplo como a masculinidade.  

Uma figura mitológica dessa masculinidade dominadora é demonstrada em uma das diversas narrativas do deus Shiva; se contava que no alto dos Himalaias, a sua morada, sua presença masculina era tão poderosa que, qualquer homem que entrasse nela imediatamente se transformava em mulher. É possível também notar que além de dominadora, a masculinidade aqui também aniquila o feminino. Essa figura mitológica, tão representada hoje em nossa sociedade na construção do masculino é uma figura arquetípica que Jung conceituou como arquétipo. Ao definir arquétipos Jung (1981/2017) afirma que se tratam de padrões coletivos de caráter mítico e por isso não pertencentes a uma psique individual, mas a toda coletividade humana. O arquétipo masculino é o Animus, a personificação da natureza masculina no inconsciente feminino, e, por isso mesmo, uma figura de identificação na construção identitária dos homens.

O Animus, como apresentado, é o que Hillman (2010) chama de “imagem”: é algo que se personifica, que é forma, que é criação da própria psique, que tem vida e energia própria; que fala e tem sentido em si mesmo; já que como diria Jung “a psique é imagem”. Entretanto, pode-se observar que, a forma como a masculinidade é construída e vivida ocorre algo que Hillman (2010) chama de literalizar: o Animus perdeu a sua multiplicidade e criatividade enquanto imagem e se tornou uma figura rígida, conceitual e definida, e por isso mesmo aprisionado e aprisionador. Aqui observa-se a questão do nominalismo, da conceituação da vida, ao invés da vivência e da experiência da diversidade que a imagem traz. Quando se literaliza, se perde a imagem, o fantástico, o simbólico.

O que isso significa para os homens? Será que todos conseguem sustentar o peso de tantas cobranças? Não conseguem. A dissociação das emoções, o desenvolvimento unilateral que nega o feminino, a literalização que empobrece a existência e o mutismo sobre seus sofrimentos conduz o homem a um estágio de violência, destruição, solidão, culpa; tais características não ocorrem só contra outros homens e contra mulheres. O homem é violento consigo, é autodestrutivo, se isola, carrega uma culpa silenciosa. Esse conjunto de fatores pode e deve ser considerado nas análises sobre o suicídio. Esses aspectos tóxicos da masculinidade são fatores que influenciam o suicídio dos homens.

É preciso reinventar, rever, reimaginar a masculinidade, ou corre-se o risco de que os feminicídios aumentem, mas também os suicídios dos homens que as matam, ou dos que não sustentam a própria existência nestes moldes.

REFERÊNCIAS

HILLMAN, J. Re-vendo a psicologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

JUNG, C. G. Os fundamentos da Psicologia Analítica. Manuais Acadêmicos. 1ª ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
KOVÁCS, M. J. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.
João Gabriel Suzart Coutinho é Psicólogo, Pós-graduado em Psicoterapia Analítica pelo IJBA/BAHIANA; é psicoterapeuta atendendo em consultório particular, é servidor público municipal, trabalhando com população em situação de rua pelo Consultório na Rua e é preceptor do curso de Psicologia da Faculdade UNIME Salvador. Contato: jgsuzart@gmail.com;



domingo, 29 de setembro de 2019

Setembro Amarelo

Sim, Setembro foi escolhido o mês para acontecer a campanha de prevenção ao suicídio, pelo dia 10 de Setembro ser o dia mundial de prevenção ao suicídio.
Sim, a ideia é incrível e tem ajudado bastante, em todos os aspectos.
Mas vamos combinar uma coisa? A prevenção ao suicídio não é necessária somente no mês de Setembro. Todos os meses deveriam ser AMARELOS. 
As doenças mentais não escolhem meses para acontecer.
Não acontecem de acordo com faixa etária, classe social, cor, religião ou localização. Simplesmente, acontecem.
E cabe a nós aderirmos ao Setembro Amarelo, não só em postagens e discursos, mas na prática. Não adianta levantar a bandeira apenas nas redes sociais e fora dela, apontar, julgar e isolar quem precisa de ajuda.
Precisamos tornar a empatia algo nosso, pessoal, uma forma de levantarmos pessoas.
Se alguém precisa ser ouvido, então ouça. Se alguém precisa de silêncio, silencie. Se alguém precisa ser amado, ame. Esteja por perto, esteja atento.
O mundo não gira em torno do nosso umbigo. Somos mais fortes quando estamos acompanhados.
E se você precisa falar, fale. Se precisa de amparo, busque em sua rede de apoio um colo. E se você não tem uma rede de apoio, existem profissionais que estarão prontos para te ajudar.
Em todos os casos, procure um psicólogo. A psicologia te entende, te respeita e te auxilia no seu processo de cura.


Priscila Calheiros