Era uma quinta feira chuvosa, e cá estava eu conferindo a listinha de afazeres do dia. Devido a tamanha organização, tiquei todas as tarefas diárias com louvor.
Sentei em frente a TV com uma xícara de café e mudava de canal sem observar de forma relevante que o passava. Resolvi assistir um filme enquanto esperava o sono chegar, tarefa árdua ultimamente.
Um dia de cada vez, eu repetia para mim mesma. Afinal, eu estava me esforçando. Escolhi um filme aleatório, apenas como uma forma de manter a televisão ligada fazendo a devida companhia que alguém que mora só precisa ter. O celular tocou e, antes mesmo de ver quem era, atendi.
Oi, Felipe! E o meu coração estremeceu em pronunciar seu nome. Uma ligação rápida, apenas para me avisar que em minutos chegaria a minha casa.
Éramos amigos há bastante tempo, e sabíamos muito um do outro. Porém, de uns tempos para cá descobrimos gostar um do outro e isso estava nos afastando. Contraditório, não é? Mas era isso que acontecia quando se confundia os sentimentos.
Lipe, como o chamava, era meu parceiro nas boas risadas, nas lágrimas e nos sufocos, nas viagens e nos filmes de comédia romântica que ele sempre reclamava de ter que assistir.
Estávamos tão acostumados um com o outro que não percebemos o sentimento que crescia entre nós.
Uma batida na porta e despertei dos devaneios. Quando abri, ele me olhava com a feição de quem vê o pote do ouro no fim do arco íris. Em instantes, ele estava abraçado comigo e sua respiração era calma.
Me olhou novamente nos olhos e pediu que o ouvisse atentamente.
Havia dias que pensava em nós, pela primeira vez como casal, depois de uma conversa que tivemos. A decisão final era nos mantermos longe, já que deveríamos estar confundindo as coisas. Um tempo acalmaria os ânimos.
A questão era que ficar longe causava ainda mais saudade e necessidade de estar junto. E o quanto havia refletido sobre o que sempre aconteceu entre a gente, mas não percebíamos.
Alguns minutos listando tudo que gostava em mim e o quão feliz eu o fazia, fez meu mundo parar e capotar logo em seguida.
Eu só conseguia pensar: é recíproco! Eu não estou nisso sozinha!
Não houve sequer um beijo, um convite para entrar ou algo parecido. Passamos alguns minutos na porta dizendo coisas e nos olhando com afeto, seguros de que o amor contemplava tudo, até as voltas que a vida dava.
Ali, diante daqueles olhos, entendi sobre a importância do toque, mas também, do qual precioso é se amar só com o olhar. A energia trocada é reflexo da capacidade de entender aquilo que transcende, ultrapassa os limites.
Enamorados nos amamos, sem sequer entrelaçarmos.
Éramos nós e uma vida inteira a ser vivida. Éramos nós e a vontade de mergulhar no escuro, mesmo com todas as luzes iluminando o caminho.
Juntos.
Priscila Calheiros