Sempre tive problemas em relação à minha aparência. Quando criança, todo mundo me elogiava e me colocava como a mais bonita disso e daquilo. Festa de escola, desfile de 7 de Setembro, aniversário, sempre era eu a bonequinha de apresentação.
Daí eu cresci, meu corpo mudou, eu mudei o jeito de me ver e a cobrança só aumentou. Passei a me ver como o "patinho feio", mesmo tendo os mesmos traços de quando criança. E aí começa o problema, os outros cobram da gente, nós mesmos nos cobramos e chega uma hora que ninguém connsegue mais viver com tanta cobrança.
Existe um padrão estabelecido pelas pessoas e pela mídia, onde se tem que vestir 38, ser bastante feminina, não ser muito alta, ser gorda é crime, bunda grande, peitos também, cabelo liso e etc. Bonito para essas pessoas é mulher esquelética.
E para alcansar esse esteriótipo de mulher perfeita, muitas pessoas se propõem a fazer dietas malucas, não comer nada, comer e vomitar (bulimia), tirar costelas, cirurgias plásticas. Confesso que já pensei em dietas e parei de comer, porque não me aceitava do jeito que era. Os famosos culotes e essas gordurinhas que incomodam até a alma, somados às paranóias em relação a pele, cabelo e outras coisas, me fizeram e me fazem pirar de vez em quando.
Engraçado como a maneira como nos vemos é crucial em tantas áreas da vida. A auto estima baixa faz com que tudo a nossa volta seja repensado, reavaliado, ficamos com dúvidas até da nossa capacidade intelectual. Você começa a se auto denegrir, se inferiorizar, se diminuir, e quando vê já chegou no centro da Terra, de tão baixo.
E a tendência é piorar quando uma pessoa não quer ter um relacionamento com você, se a sua mãe ou aquela amiga querida fala alguma coisa sobre a parte que você menos gosta em você, se vai em uma loja e as roupas estão cada vez menores e os números cada vez maiores, se você vai sair e teu cabelo resolve estourar a Terceira Guerra Mundial, se nasce aquela maldita espinha bem no meio do rosto e tantas outras situações que simplesmente não deveriam acontecer.
Por muito tempo me culpei por comer o que gosto, por não ter o "padrão de beleza da tv". E me escondi por medo de tantas cobranças e julgamentos de pessoas que, inclusive, são tão ou mais "imperfeitas" que eu. Mas aí, depois de muito me detonar e dizer a mim mesma que eu não era nada, não era ninguém, resolvi ouvir pessoas que me viam como eu realmente era. Decidi que me aceitaria, com minhas gordurinhas, meus pneusinhos, minhas espinhas terroristas, um pouco mais alta que a maioria das mulheres, com bunda "normal", peitos "normais", inteligente acima da média, amiga, companheira, fiel, cheia de defeitos, com olhos verdes lindos, uma capacidade absurda de amar e odiar na mesma proporção e mais um monte de coisa.
Eu sou assim, sem tirar nem por, e aceito isso. E quem me quiser por perto vai ter que aceitar isso e me amar assim mesmo.
Não foi fácil, mas fiz as pazes comigo porque eu precisei, busquei, porque foi minha última opção, depois que fui ao fundo do poço: eu simplesmente parei de cavar e estou no processo de subida. O céu é o limite.
Espelho, espelho meu, existe mulher mais linda que eu?
Impossível!
Priscila Calheiros