Chega uma hora que termina. Como água que evapora. Aquele sofrimento todo que sentimos após o fim de um relacionamento, acaba. Nem nos damos conta, mas acaba.
Acho que com a maioria acontece, no dia seguinte ao término, parece que nada pode ser pior que aquilo. Claro que estou me referindo aos términos traumáticos, aqueles que eu chamo de "quando um não quer, o outro sofre". Naquele tenebroso momento, não se consegue enxergar nada além do breu que se estende em nossa frente. Tudo perde a cor, o gosto, a força. As músicas de amor se tornam insuportáveis, e se for música da trilha sonora do ex-casal, quebra o que estiver tocando essa marcha fúnebre.
Cada foto, cada cartão, o papel do primeiro chocolate, a rosa murcha dentro da agenda, o CD do vídeo com as fotos de um ano de namoro, tudo vira um fragmento do pesadelo. Perceba que não se acha tudo ao mesmo tempo para jogar fora (sim, a atitude do momento é sair destruindo tudo!), as coisas vão aparecendo aos poucos. Numa gaveta, no armário, no celular, no caderno, nas prateleiras. Cada achado, uma pontada de dor.
E você não consegue pensar em nada além de: essa dor não vai passar nunca!
Daí chegam os conselheiros e mestres do amor para te dizer que vai passar, ela não te merecia, ele é um cachorro (CACHORROS NÃO MERECEM SER COMPARADOS COM GENTINHA QUE APRONTA, ISTO É UM ERRO!!!), você merece coisa melhor. O problema, pequeno probleminha, é que infelizmente, o causador da dor é a única pessoa que pode curá-la.
Nada feito! Não passa. Parece que vai roendo por dentro como um parasita que se apropria do seu corpo para sugar suas energias. Os dias passam e você se divide entre chorar e olhar para o celular, esperando algum sinal de arrependimento e um pedido de volta. Mas nada acontece além das mensagens dos amigos mandando você superar e te chamando de besta, e da operadora te ameaçando porque seu crédito está abaixo de R$ 2,00 reais e se você não inserir novos créditos, seu número será cancelado.
É difícil aceitar o fim de um relacionamento quando você resolve que está na hora de terminar, mas é quase impossível quando a decisão foi tomada pela outra pessoa ou algo aconteceu para que chegasse ao fim. Alguns sofrem menos, outros sofrem mais, cada um na sua particularidade, mas sentem sua dor. A grande questão é que o luto precisa ser vivenciado, e nada do que disserem vai mudar o que está acontecenndo naquele momento. Porém, somos nós que devemos colocar o limite ao sofrimento. Claro que, na prática, não se tem muita força para levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. A volta que se quer dar, no máximo, é de um lado para o outro na cama.
Mas graças a Deus, a vida segue. As aulas continuam, o trabalho chama, os filhos precisam de cuidados, as compras precisam ser feitas, a casa precisa estar limpa, as contas têm que ser pagas. Nesses pequenos detalhes é que a vida continua. Uma hora você tem que levantar, tomar um banho, pentear os cabelos mesmo que sem conseguir se olhar no espelho e ir viver. Chega um momento que não dá mais para fugir. E os dias vão passando, você se torna cada vez mais ocupado e nem percebe que já não é mais Agosto, e sim, Dezembro. E que você já consegue dormir, comer, conversar. Já não fica mais com o celular na mão esperando o sinal de vida de alguém que nem lembra de você. E que já não dói tanto assim. E que no carnaval você viajou com a família e foi ultra divertido. E na páscoa você se encheu de chocolate e na Segunda-feira começou a dieta-maluca-projeto-verão-ano-que-vem. E no recesso de Junho você aproveitou bastante aquela viagem só de amigos e já consegue perceber aquela gata que te deu mole. E que a Primavera chegou novamente, porém, desta vez você precisa renovar seu guarda-roupas pois o Verão já está chegando e você quer arrasar. E no fim das contas, você nem lembra mais de quem te magoou. E nem se dá conta de que não está sofrendo mais. A ferida já está com aquela casquinha e quando molha, não arde mais. Mas se a casquinha sair, ainda sangra. Porque as feridas precisam de tempo para cicatrizar. Mas já não dói mais. Só está esperando completar o ciclo da cicatrização para só ser lembrado por uma marquinha que vai ficar, para te mostrar que, ali foi machucado, sangrou, doeu, precisou de tempo para se curar, mas agora é só uma amostra do que aconteceu, não mais a ferida aberta.
Tudo tem a hora de acabar. O sofrimento está incluído nisso. Mesmo que na hora pareça que não vai passar nunca, sempre passa. Caimos para aprender a levantar. Perdemos para ganhar algo novo. Sofremos para aprendermos a sermos felizes.
Nada como um dia após o outro.
Simplesmente, passou.
Priscila Calheiros
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