Sempre fui muito de brigar. Não sabia o que era levar desaforo para casa, e se levasse, só faltava morrer de ódio. Mas na maioria das vezes, eu revidava até que a pessoa se sentisse mais baixa que a superfície da Terra. Eu nunca fui "fácil" nesse sentido.
Com o tempo fui percebendo que não conseguimos nada no grito. A gente não só se rebaixa a quem está discutindo conosco, como eles nos vencem pela astúcia. Não posso dizer que sou um doce de pessoa, mas amadureci bastante.
Hoje aprendi a ouvir mais, talvez pela profissão que escolhi exigir muita escuta de mim, aprendi a pensar duas ou dez vezes antes de falar, me colocar mais no lugar dos outros, saber que magoando eu posso ser magoada, aprendi a não revidar tanto as coisas. É muito difícil, mas entendi que é o melhor a se fazer.
Lembro bem de determinada vez quando fui ofendida e não devolvi a ofensa. Confesso que na ocasião fiquei tão perplexa e triste com o ocorrido que não tive reação nem para responder: é você!
Fui muito criticada por não ter "quebrado o pau", como podia eu não ter esculhambado a pessoa, ouvi muito "se fosse comigo ela ia ver!". O tempo passou, e hoje agradeço a Deus por não ter em nenhum momento descido a falta de nível da criatura. Eu sou melhor do que a baixaria dela. Eu tenho educação, EU fui ofendida, EU fui agredida verbalmente e a errada sempre será ELA que me ofendeu. Claro que a vontade que dá é partir a cara ao meio do ser na mesma hora. Mas nada é mais gratificante do que ter a consciência tranquila de que você está certa.
Isso não se aprende de um dia para o outro, nem acordamos num dia de sol e nunca mais perdemos nosso equilíbrio. Isso é uma batalha diária. Quando eu era criança, algumas vezes que minha mãe brigava comigo ou me proibia de algo, ou alguém na escola fazia alguma coisa comigo, eu me trancava no quarto, me beliscava e/ou me mordia. E chorava bastante. Eu precisava sentir alguma dor que fosse maior que a raiva que eu sentia. Claro que só entendi isso depois de adulta, mas era esse o motivo pelo qual eu fazia esse tipo de coisa. E fui crescendo sempre muito nervosa, me irritava com tudo, tinha um temperamento quase impossível. A genética conta, porque meus pais não são pessoinhas calminhas, mas eu por mim mesma, já era uma bomba atômica.
Enquanto eu crescia as coisas se instensificavam, não me mordia nem me beliscava mais, porém, em compensação, comecei a me torturar psicologicamente. Não sei como eu conseguia fazer aquelas coisas. Mas fazia. Meu estado de espírito era bem parecido com um vulcão, sempre pronto para entrar em erupção. Com isso eu perdia as pessoas que eu amava, minha saúde, meus momentos de lazer, porque eu era praticamente uma terrorista, nunca nada estava bom, não entendia ninguém e ninguém me entendia.
Daí me tornei adulta e só fiz piorar. Nada prestava, tudo era motivo para que eu detonasse. Eu soltava faísca. Cabeça de fósforo, tsunami, furacão, terremoto, coisas do tipo. Eu era tudo isso e um pouquinho mais. Eu mesma depois sentia pena das pessoas com quem eu brigava. Coitados de quem se atrevia a me provocar.
Um dia eu cansei de viver desse jeito. Não pelas pessoas em si, mas por mim. Comecei a me perguntar o que eu ganhava com aquilo e a resposta foi: nada! Aí vem a parte mais difícil, como mudar algo que é de minha própria personalidade? Aprendi que há coisas em nós que não podemos mudar, mas podemos controlar. É um treinamento diário, como aquele "só por hoje" de quem é viciado em alguma coisa.
Eu acordo, e decido qual dos dois lobos que existem em mim eu vou alimentar naquele dia. Nem sempre funciona, sempre tem alguém pra tirar sua paz, pra lhe tirar da rota. Mas cabe a você se permitir seguir no comando do seu gênio ou largar o freio e destruir o que vier pela frente.
Continuo sendo a mesma bravinha, irritadinha, às vezes rancorozinha, briguentinha, ciumentinha (muito!!!), tem dias que a língua ferina fala mais rápido que o pensamento (difícil eles estarem em concordância!), mas tenho exercitado todos os dias controlar meu instinto e não deixar que ele me controle.
Amo ser eu, às vezes totalmente sensata, às vezes totalmente nervosa. Mas amo mais ainda a maneira como tenho aprendido a lidar comigo mesma, como tenho aprendido a amadurecer.
Pode parecer besteira, mas liberdade é poder escolher não seguir o fluxo. É poder dizer não àquilo que não nos acrescenta nada. Ser livre é dominar o próprio temperamento e não ser dominado por ele.
Só por hoje.
Priscila bombinha atômica em recuperação Calheiros
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