terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

As borboletas morreram



Eu esperei, criei histórias na minha cabeça para justificar seus erros, te dei tempo para você se decidir.
Mas a decisão já havia sido tomada. Eu era apenas o passatempo dos seus términos, o conforto do seu vazio, o amor que você nunca teve.
Eu sofri. Meu Deus, como eu sofri! Me perguntava o por quê, como você não enxergava que eu era o melhor para você? Era tão óbvio!
Mas suas intenções sempre foram claras, não via quem não queria. Você gostava era das traições, da falta de respeito da relação de vocês, do interesse mútuo dela em ser bancada e o seu em trair sem maiores problemas. Você gostava dela exatamente porque ela era como você. Ambos não valiam nada.
Durante algum tempo, me questionei sobre tantas coisas, o porquê disso, o porquê daquilo, como me permiti passar por tantas coisas ruins, qual a razão de ser tão boba, como pude confiar em alguém como você. Temos essa tendência, né? Puxar a culpa pra nós dos erros que os outros cometem.
Mas, sabe, um dia a ficha caiu. Nunca foi sobre como você era lindo e maravilhoso, companheiro, amigo, fiel, presente, disposto a fazer com que a gente desse certo. Até porque, você não era nada disso mesmo.
Era sobre a minha capacidade de buscar relações vazias, minha falta de amor próprio, meu desejo inconsciente de não dar certo com ninguém.
Porque vamos combinar, quem em sã consciência se relacionaria com alguém tão sem caráter como você?
E, graças a Deus (e a linda da Psicologia), fui compreendendo os efeitos e cheguei até as causas. O problema sim era você, mas a decisão era minha.
E decidi que nenhuma lágrima seria mais desperdiçada, meu travesseiro não me consolaria pela sua ausência, não me compararia com ela para achar uma forma de me diminuir, não questionaria ao universo os nãos de nós dois, não fugiria da dor na esperança de tê-lo outra vez.
Eu merecia mais. Eu precisava de mais. Você sabe, nunca fui do pouco, do raso, do talvez. Oito ou oitenta. Sempre.
Me permiti chorar e ser frágil pelo tempo que precisasse, para curar definitivamente a ferida escancarada que você fez com a minha permissão, jogando areia nos meus sonhos, me diminuindo como mulher e rejeitando todo o amor que eu tinha para te dar.
Cada dia era um pedaço da projeção que eu havia feito que se desfazia, e eu conseguia vê-lo com mais clareza. Era tudo que eu não gostava em um homem. A paixão nos cega, literalmente.
E, enfim, um dia, do nada, percebi que nada daquilo fazia mais sentido. Você não era nada além de alguém que eu sabia o nome, mas não conhecia e nem queria conhecer.
Todo aquele frisson, aquela sensação de amor incondicional e de borboletas no estômago, passou. Simples assim.
Amor quando não é regado, da mesma forma que as flores, ele morre. Hoje sou muito grata por certas mortes. As vezes, precisa morrer para a vida passar a fazer sentido.
E as borboletas, meu caro, elas morreram. Assim como o que eu sentia por você.



Priscila Calheiros

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