sábado, 30 de março de 2013

[+] (...) Nos encontramos. Ou nos reencontramos.


Me observa de longe e aos poucos, me sinto atraída por aquele olhar fixo. Quem seria este intruso que me persegue com seu olhar constrangedor?  Quem seria este homem que me busca com tanta ânsia? Não sei seu nome, nem de onde veio, só sei que me tem sem ao menos me tocar.
E começamos uma busca incessante de nós mesmos, sem que ninguém perceba. Ele é discreto, forte, sensual, criativo e urgente. Levanta de sua mesa e vem em minha direção, com um andar calmo e distraído. Mas eu sei que dentro dele há uma festa por estar me constrangendo. Eu começo a suar e procurar algo que me distraia, mas ele é mais rápido e senta a minha frente na mesa. Pede uma bebida e sorri pra mim. Imediatamente pergunta meu nome e eu quase que sem respirar respondo. Ele diz o dele e pergunta se eu quero pedir algo. Respondo que não, e ele pede mais uma bebida. Isso me deixa ainda mais nervosa, mas ele não se importa, já que é exatamente esse seu objetivo. Me despeço, meio que sem coragem, explicando que preciso ir. Ele mais uma vez sorri, segura minha mãe e me coloca sentada novamente, dizendo que é uma falta de educação deixar uma companhia sozinha. Ele me chamou de mal educada? Fico ainda mais irritada, mas me sento. Ele percebe o quanto estou nervosa e pede pra que eu fique calma. Eu, em tom de raiva, respondo que estou calma e ele cinicamente sorri. Enfim, percebo que não estou agüentando aquele joguinho e pergunto o que ele quer comigo. E ele, cafajeste, me diz que quer comigo o mesmo que quero com ele. Eu tentando parecer segura, digo que não quero nada e que vou embora, mas desta vez ele levanta e me olha. Sem dizermos mais nada, saímos juntos dali e ele me leva até seu carro, vamos por todo o caminho em silêncio e vou mentalmente me chamando de idiota, estúpida. O que ele pensa que sou? O que eu acho que estou fazendo?
Chegamos a uma casa, entramos e antes de subir as escadas uma senhora me abraça e me diz “seja bem vinda”. Fico paralisada, confusa. Logo imagino que ele é um canalha e deve levar mulheres todos os dias ali para o “abatedouro”. Mas infelizmente, ele já me domina e não dá tempo de fugir. Até porque eu não quero fugir. Somos um só naquela cama e com um leve sussurro ele me pergunta se estou bem. Não consigo falar, apenas balanço a cabeça fazendo sinal que sim e continuamos mútuos, sem fôlego, apenas com um desejo incontrolável. Ele era intenso, e me tocava com se eu fosse de cristal. Enfim, estávamos um no outro, sem interrupções, só nós dois. Abraçados, sem saber ainda o que dizer, ele me pergunta o que tinha me levado a acreditar em um homem que tinha acabado de conhecer. Eu respondi que não sabia, mas precisava correr o risco. Afinal, ele me puxava, me seduzia e eu gostava daquilo. Conversamos um pouco e decidi ir embora. Como ele mesmo tinha dito, eu o tinha acabado de conhecer e não podia confiar. Quando descemos, a senhora que tinha me cumprimentado veio em minha direção novamente e disse que estava a minha espera para o almoço. Sem saber o que fazer, olhei para ele em desespero, ele sorriu e me disse que aceitasse, ela cozinhava muito bem. Mais uma vez, me xingando mentalmente, fui, agora depositando a confiança na senhora, já que, eu supunha, ela não me faria nenhum mal. Almoçamos, nós dois, a senhora e mais umas três pessoas, que me tratavam com muita educação e cortesia. Estranhei, pois ali ninguém me conhecia, mas continuei ali. Afinal, o clima era muito agradável. Acabamos e ele pediu licença, porque precisava me levar. Me despedi de todos, agradeci e enquanto ele se movia até a porta, a senhora me abraçou e disse que havia gostado muito de mim, que eu voltasse mais vezes e que, estava há muito tempo a minha espera. Sem questionar, sorri e agradeci mais uma vez, indo ao encontro dele. Ele me beijou, segurou minha mão e pediu que eu não fosse embora. Falei que precisava ir, afinal tinha saído apenas para tomar um café e não dava notícias desde a manhã, mas que se ele quisesse, nos veríamos em breve.
Fingindo ficar triste, deu um leve sorriso e entramos no carro. Me deixou na porta de casa, e antes de sair lhe disse que aquilo tinha sido loucura. Totalmente descarado, respondeu que sim, mas que era uma loucura muito boa de fazer. Me entreguei rindo, mas já estava feito. Pedi uma última coisa, que prometesse ser sincero quanto ao que eu perguntasse e ele concordou. Perguntei sobre a afirmação da senhora, que disse que “estava há muito tempo a minha espera”. Ele me olhou, sem sorrisos descarados e cínicos, e disse: "Nunca levei ninguém pra casa, todos lá sabem que o dia que eu levasse, seria alguém especial. Minha mãe deve ter entendido assim." Meu chão se abriu, mas me mantive firme, e pensamentos começaram a me invadir. Ele tinha mãe, família, e o pior de tudo, eu era “alguém especial”. Nos despedimos com um beijo, e entrei em casa. Fui para o quarto e deitei em minha cama, me sentindo estranha. Meu coração acelerava, e como um susto, entendi tudo o que tinha acontecido naquela manhã. Certa vez, li num livro que nada acontece por acaso, e se eu estava naquele lugar e ele também é porque havia um motivo. Tínhamos que nos encontrar, eu o buscava e ele me buscava também. Pertencíamos um ao outro e enfim nos encontramos. Ou nos reencontramos. E, mais ferrada do que nunca, eu estava completamente apaixonada por ele!


Priscila Calheiros

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