terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

[+] O leque, vovó e eu.

Quando eu era criança eu gostava de brincar com o leque da minha vó. Tinha algo mágico, especial em abrir o leque e fazer caras e bocas no espelho. Não sei se era porque aflorava uma parte de mim que queria ser adulta ou porque havia a ilusão de poder naquele instante voltar no tempo e ser daquela geração.
Pois, verdade seja dita, eu nasci na época errada. Sempre me espelhei na conduta da minha vó, e tenho certeza de que, apesar de sofrer pelas questões machistas destrutivas e abomináveis, nelq havia compostura.
Eu deveria achar natural o que costumo ver, mas não acho. Para mim é demais ver meninas de 11 anos vestindo shorts cada vez mais curtos e engravidando pelos cantos escuros da vida. Não acho normal ver "músicas" que decretam a pornografia como cultura para a maioria. Muito menos que o país onde nasci precise de uma lei que proíba reprovar os alunos das escolas públicas, pois precisam mostrar os índices cada vez mais baixos de analfabetos no país. Me recuso a aceitar leis tão brandas para crimes tão bárbaros. Não consigo acreditar que a promiscuidade seja o carro chefe da vida dos jovens de hoje. Uma sociedade onde as meninas são ensinadas pelas próprias "mães" a abortar, e filhos são ensinados pelos próprios pais a bater no negro, no pobre, nos homossexuais, na prostituta, no mendigo, por simplesmente acharem que eles não são dignos e/ou por não concordarem com suas ações e que não haverá punição para isso. Repudio a falta de respeito que se instalou dentro da casa das pessoas, nas escolas, nas festas. Pessoas que andam armadas prontas para matar quem passar pelo caminho. Pessoas que fingem estar dormindo para não dar lugar aos idosos, lugar de direito dos mesmos. Um mundo onde se prolifera a vulgaridade, a imagem que as mulheres são obrigadas a passar é de que são fáceis para não ficarem "sozinhas". Um mundo onde dizer o que pensa pode lhe custar a vida. Pessoas que detestam outras por não ter o que elas LUTARAM para ter. Pai que abusa de filho (a). Mãe que sabe do abuso, mas para não perder o marido ou por crueldade mesmo, permite e acoberta o abuso. Filhos que mandam matar ou matam os pais. A maldição do mundo destruindo famílias, matando sonhos e corroendo vidas, que são as drogas (não só as ilícitas). Casamentos sendo espancados por adultérios, pois se tornou comum "pegar" pessoas comprometidas e postar: "quem não dá assistência, perde a preferência e abre a concorrência". Pessoas que não consertam as coisas, simplesmente, as jogam fora (isso se estende as relações entre as próprias pessoas). Amizades feitas e mantidas a base do interesse, o ódio dominando o coração do ser humano. O mundo virtual que engloba e aprisiona a maior parte da população mundial nas redes sociais. Um mundo onde a garantia é a fabricação de alienados e consumistas, pois quanto mais ignorantes no mundo melhor para quem está no poder, porque terá ainda mais poder sem precisar explicar como, quando e o porque. Uma sociedade medíocre e hipócrita que vai as ruas gritar por mudança e nas eleições usam as próprias mãos para afundar ainda mais o país. Uma terra onde o lema é "se ver alguém morrendo, termine de matar".
Daí você pode me perguntar onde entra o leque e o que eu comecei o texto falando. Na época da minha vó, a maioria dessas coisas não existiam. Sim, existia violência e mentiras e machismo, líderes doentes que mandavam matar pessoas por sua religião ou cor, drogas, doenças e tantas outras coisas, mas se podia andar de bicicleta sem ter que pensar em quantas mensagens deixariam de responder no WhatsApp, brincavam na porta da rua enquanto as mães cozinhavam, sem o pavor de assaltos ou sequestros ou coisas do tipo. As mulheres se portavam com respeito e pudor, afinal suas particularidades interessavam apenas a ela e a seu marido. Não, não sou a favor do "lugar de mulher é na cozinha", mas acho absurdo mulheres e meninas andando quase nuas pelas ruas. Hoje, tudo é tão fácil que os homens nem se dão ao trabalho de tentar conquistar, já vão direto ao ponto. Estamos na era do OU: Chegou, pegou, largou. A maldade tomou uma proporção gigante e, eu pelo menos, acredito que só Deus na causa.
Hoje, adulta, entendo a relação de admiração pelo leque. Era uma maneira de me esconder, viver uma época que nunca poderei viver, uma honra poder imitar minha vó, mas principalmente, representar uma mulher de verdade. Que se orgulha de ser o que é e tem o respeito dos outros. Na época, isso tudo estava guardado no meu inconsciente. Mas era só a preparação para o que eu me tornaria hoje. Ainda tenho muitos degraus a subir, muito o que aprender e melhorar, mas tenho certeza que, se estivesse aqui, vovó teria orgulho de mim.
De mim e do meu manejo com os leques da vida.
Priscila Calheiros

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